Ajuste de Rota

A queda dos juros impôs grandes desafios para o mercado de previdência complementar privada, tanto do ponto de vista das seguradoras quanto dos segurados.

Juros menores significam menor rentabilidade dos recursos guardados para a aposentadoria, o que leva o poupador a aumentar o volume aplicado ou adiar a data de retirada, ou a adotar as duas possibilidades, dependendo da situação. Ao dar-se conta dessa realidade e tendo a possibilidade de migrar seus recursos para os concorrentes (portabilidade), os investidores estão pressionando as seguradoras para derrubar taxas de gestão e carregamento de forma a compensar o menor rendimento com juros.

O mercado competitivo derrubou a taxa de carregamento para zero – desde que o dinheiro fique guardado em longo prazo – e as taxas de administração estão oscilando entre 0,5% a 3,5%. "Os parâmetros não mudaram muito, poré, no passado, eram raríssimos planos com taxa de administração abaixo de 1% e muito comuns os de 2% ou mais", diz Keyton Pedreira, economista especializado em finanças pessoais, sócio da Nunes e Grossi Consultoria em Gestão de Seguros e Benefícios.

A maior mudança, entretanto, foi a redução dos valores mínimos para ingresso nos fundos com taxas de administração menores, abrindo para um número maior de pessoas o acesso a planos com rentabilidade melhor. "Atualmente já existe uma gama bem maior de planos abaixo de 1% [em taxa de administração] e a maioria dos comercializados está na faixa de 2% ou menos", diz Pedreira.

A disputa entre as seguradoras tende a resultar em uma queda dos lucros em um futuro próximo. A previsão é das próprias empresas, ouvidas em uma pesquisa realizada pelo economista e consultor em seguros, Francisco Galiza, junto a 40 seguradoras para saber das expectativas para 2013. Ele descobriu que 80% delas estão otimistas em relação às vendas, poré, quase metade prevê baixa nos índices de rentabilidade do negócio, o que, para ele, está diretamente relacionado à queda dos juros. "As seguradoras vão ter que se ajustar para enfrentar esse cenário", afirma Galiza.

Neste ano a arrecadação dos planos de previdência privada totalizou R$ 48 bilhões, entre janeiro e setembro (último dado disponível), com crescimento de quase 30% em relação ao ano passado, segundo dados da Federação Nacional de Previdência e Vida (Fenaprevi). A carteira de investimentos acumulou R$ 318 bilhões, 25% mais que em 2011. Do ponto de vista dos consumidores, talvez seja hora de revisar o plano. "As pessoas têm que ficar muito atentas", alerta Pedreira.

De acordo com ele, numa conta muito simplificada, considerando a taxa de juros básica (Selic) ao nível atual de 7,25%, um plano que cobra zero de carregamento e 1% de taxa de gestão já reduziria a remuneração do dinheiro acumulado a 6,19% nominais, antes dos impostos.

Deduzida a inflação – estimada hoje em torno de 5% anuais -, a rentabilidade real cai para 1,13% ao ano. "Se tiver uma taxa de 2% [de administração] o juro do plano seria zero, mas se passar de 2%, o investidor já começa a perder dinheiro", afirma o consultor.

Para Osvaldo do Nascimento, diretor-executivo de produtos, investimentos e previdência do Itaú Unibanco e vice-presidente da Fenaprevi, as taxas de gestão e carregamento no Brasil já foram alinhadas com as que são praticadas no exterior – Chile, EUA e alguns países europeus – e novas reduções só serão possíveis quando o mercado ganhar escala, ou seja, quando mais dinheiro estiver aplicado.

Para Nascimento, com juros baixos, o importante para o investidor é organizar-se, disciplinando-se para guardar dinheiro e trabalhar o tempo a seu favor, aproveitando os benefícios fiscais de longo prazo dos planos de previdência. "A cascata de tributos tem um efeito significativo ao longo do tempo", afirma o executivo do Itaú.

A Itaú Vida e Previdência administra R$ 64 bilhões, distribuídos entre 170 fundos sob gestão, individuais e exclusivos. O volume cresceu 31% neste ano em comparação a 2011. A seguradora não alterou suas taxas de carregamento, que variam de 3,5% para quem tem até R$ 10 mil aplicados, e seguem uma escala decrescente até 0,75%, para quem aplica mais de R$ 100 mil. As taxas de administração não foram informadas pela empresa, mas variam de acordo com o valor aplicado e a família de produtos contratada – renda fixa ou variável.

Com reservas de R$ 19 bilhões e 790 mil planos contratados, a Caixa Seguros baixou as taxas para a maioria de seus planos, que podem ser feitos a partir de R$ 35 mensais. Tarcísio Abreu, gerente de produtos de previdência da seguradora – "joint venture" entre a Caixa Econômica Federal e a francesa CNP Assurance – disse que as taxas de administração baixaram para entre 0,5% e 2,5%. A taxa de carregamento tem uma escala decrescente, desde um máximo de 1,5%, podendo chegar até zero se o investidor permanecer no fundo por mais de 36 meses.

Em 2012 a arrecadação em previdência da Caixa Seguros, que alcançou um total de R$ 3,7 bilhões, duplicou se comparada a 2011. Do valor arrecadado, R$ 500 milhões chegaram de outras seguradoras por meio da portabilidade. "O que percebemos é que mesmo com taxas de juros em baixa, a previdência é atrativa em longo prazo se comparada a outros ativos como os fundos", analisa Tarcísio Abreu.

Na opinião de Cláudio Pires, superintendente financeiro da Mongeral Aegon Vida e Previdência, um dos principais ajustes que as seguradoras terão que fazer está relacionado à gestão dos recursos acumulados, que precisam ser adaptados à uma nova realidade.

Ele lembra que, no início do ano, os títulos indexados à inflação pagavam IPCA mais 6% ao ano. "Agora pagam entre 2% e 4%, quando muito", analisa o executivo da Mongeral, uma pequena seguradora de vida e previdência que se associou em 2009 à holandesa Aegon, um gigante do mercado internacional dos seguros de vida.

A Mongeral possui três tipos de planos com taxas de administração que variam entre 1% e 2,5%, dependendo do perfil do plano (renda fixa ou variável), podendo chegar a 0,7% no plano voltado para grandes investidores. A taxa de carregamento pode chegar a zero se o investidor permanecer no plano mais de dez anos.

A concorrência é grande e nem sempre taxa zero é a única arma. Que o diga Mauricio Amaral, vice-presidente de vida e previdência corporativa da Zurich Seguros, uma empresa suíça que decidiu investir alto no Brasil para avançar no mercado de vida e previdência. "A briga é constante e acaba não sendo só a taxa, mas também a consultoria, o sistema de gestão, a prestação de serviços", diz Amaral. Mesmo assim, para ganhar mercado, a Zurich baixou a zero a taxa de carregamento na entrada e na saída das aplicações e mantém a taxa de administração no intervalo de 0,8% e 1,2% dependendo do perfil do plano, se mais conservador ou mais moderado.