Aposentados não arcam com seus custos

Estudos indicam que apenas 1% dos aposentados conseguem arcar com seus próprios custos 

– Medicamentos e tratamentos de saúde agravam os orçamentos dos aposentados 

– Os que têm planos de previdência privada não passam de 6% da população 

Jane Maria Machado tem 62 anos, é cardíaca e aposentou-se por invalidez com benefício de um salário mínimo. Mensalmente, ela gasta R$ 1.431,31 comprando medicamentos. A quantia que recebe como aposentadoria, R$ 678, é menos de metade do que ela precisa para comprar os remédios de que necessita para o tratamento do coração. Sem a ajuda do filho mais velho, seria impossível manter o tratamento e pagar despesas com alimentação, roupas, transporte e moradia.

Em 2014, o garçom Clóvis Luiz Nascimento completa 35 anos de contribuição ao INSS. Vai se aposentar com benefício próximo a dois salários mínimos. A renda não será suficiente para manter uma família com três filhos e dois netos, pois os gastos mensais serão maiores do que o valor da aposentadoria. Para continuar com as despesas em dia, ele permanecerá trabalhando. 

Os dois casos acima retratam a precariedade da situação dos brasileiros diante de sua aposentadoria. Dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi) mostram que apenas 6% da população brasileira – cerca de 12 milhões de pessoas – têm plano de aposentadoria privada. O panorama geral é preocupante tendo em vista que, segundo pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) a pedido da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), nada menos do que 61% da população brasileira não tem nenhuma aplicação financeira que garanta o seu futuro. 

O problema é que fazer investimentos e planejar a aposentadoria ainda não é um hábito do brasileiro. Nos últimos anos, a população ganhou renda e ascendeu na sociedade de consumo, mas somente 15% da população economicamente ativa do Brasil tem poupança a longo prazo, com foco na velhice. “Só 1% dos brasileiros conseguem se financiar depois da aposentadoria”, garante Tharcísio de Souza, diretor do curso de MBA da Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap), que realizou cruzamentos estatísticos com os números do IBGE. De acordo com ele, 52% dos que mantêm aplicações financeiras em bancos são das classes A e B. Entre os mais pobres – classes C e D – esse percentual é bem menor, apenas 29%. “O pé de meia é o melhor amigo do aposentado brasileiro”, alerta Tharcísio de Souza. 

POUPANÇA 
Para obter rendimentos equivalentes adicionais ao benefício do INSS no valor de um salário mínimo, um homem de 25 anos terá que poupar R$ 40,92 ao mês até os 65 anos e uma mulher da mesma idade R$ 84,02 até os 60 anos. Se tiver 35 anos, para alcançar a mesma quantia um homem deverá guardar R$ 78,05 ao mês e uma mulher R$ 162,56. Quando o número de aniversários sobe para 45, a quantia mensal a ser poupada para o sexo masculino é de R$ 167,59 e para o feminino R$ 371,51. Os cálculos foram feitos pelo professor Ivan Sant’Ana Ernandes, da Atest Consultoria Atuarial, e tomam como base o rendimento médio mensal dos brasileiros no trabalho, que, segundo a Pesquisa Mensal do Emprego, está na casa de R$ 1.849. 

Para chegar a eles, o especialista levou em conta as probabilidades de sobrevivência do contribuinte desde a idade atual e até a idade de início do benefício. Foram considerados o início de pagamento do benefício aos 60 anos para mulheres e 65 anos para homens, a tábua de mortalidade IBGE 2010 (segregada por gênero), uma taxa real de juros de 5% ao ano, além de 12 pagamentos ao ano para a poupança e para o recebimento da renda. Aos 65 anos, a tábua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima sobrevivência média dos homens por mais 16,37 anos, tempo pelo qual receberão a renda. Aos 60 anos, a mesma tábua estima para as mulheres sobrevivência média de 22,97 anos. 

De acordo com Osvaldo Nascimento, presidente da FenaPrevi, proporcionalmente à renda média da população, a previdência social brasileira tem o teto mais alto do mundo. O problema é que esse modelo não se sustenta a longo prazo, já que à medida que a população envelhece menos pessoas contribuem para bancar os que dependem da previdência, cujas contas tendem a se deteriorar. (Marinella Castro – Portal Uai)