Ate que o dinheiro os separe
27/07/17

Ate que o dinheiro os separe

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Num mundo perfeito, cada membro do casal tem um ordenado ou rendimento digno, as despesas comuns são divididas a meias ou proporcionalmente, de acordo com os vencimentos, e, para objetivos individuais, cada um usa a sua poupané a e faz os gastos que quer.

Mas não é tão simples. Hé desigualdades salariais que desequilibram os pratos da balané a do poder, hé a casa onde vivem os dois mas é sé de u, hé desemprego e trabalho precé rio, hé ideias diferentes do que são as despesas comuns e opiniões distintas sobre o caminho a dar ao que sobra depois de pago o essencial já e até não ões diferentes do que é essencial. E hé gastadores compulsivos e mané acos da poupané a e educações financeiras familiares distintas.

E depois hé o tabu. Falar da é intimidade financeiraé de cada um é um assunto delicado e nem sempre o tema é abordado de maneira franca. Para a psicé loga Filipa Jardim da Silva, o tema ainda está envolto numa grande dose de autocré tica traduzida na frase corrente: é Não acredito que estamos a discutir por causa de dinheiro.é Como se o assunto não merecesse ser tema de conversa. é Ainda se nota algum preconceito em discutir sobre questões tidas como menores, como tarefas domêsticas e dinheiro. é como pensarmos numa casa e considerarmos que o ché o e as paredes são aspetos menores quando apreciamos a decoração.é

Em termos pré ticos, a regra devia ser separar finanças pessoais de finanças do casal.

é O que funciona melhor é haver uma conta comum alimentada por ambos, na propor o daquilo que ganhamé, diz Susana Albuquerque, autora do livro Independé ncia Financeira para Mulheresé (ed. Estrela Polar). Em termos pré ticos, a regra devia ser separar finanças pessoais de finanças do casal, com contas separadas para gastos e poupané as individuais e uma conta comum para despesas comuns. Mas hé diversidade.

vezes colocam os dois o mesmo valor, independentemente de os ordenados serem diferentes, e hé casais que tem as contas todas em comum e outros não tem conta nenhuma em comum e cada um está responsável pelo pagamento de certas contas.é E funciona na mesma, sem discussões, que é a é nica coisa que realmente importa, reforé a aé coach, com 12 anos de experié ncia em gestão financeira pessoal.

Em casa de Cé tia e de Jo o vigora uma destas muitas variantes. Ela é assistente numa clé nica denté ria, ele é gerente de um restaurante. Té m duas filhas pequenas, estão casados hé seis anos e cada um tem a sua conta pessoal. é Ele paga a é gua, luz, gé e a creche das mié das e eu pago a renda, a internet e os seguros de saúde.é Em comum hé apenas um plano poupané a reforma (PPR).

As diferené as são sobretudo entre educações de base e perfis de personalidade diferentes. Homens e mulheres tendem a reproduzir a gestão financeira da família de origem.

O marido entra com mais dinheiro, porque ganha mais, mas as contas não são feitas propriamente ao cé ntimo ou recorrendo a uma regra de três simples para apurar proporé ões. é As despesas de comida, vacinas ou medicação dependem de quem vai é compras nesse dia e vamos alternando. Para as fé rias ou outras saé das, muitas vezes aproveitamos o dinheiro do IRS. Mas hé anos em que pago sé eu e outros em que paga sé ele. Tentamos fazer uma viagem para fora do país todos os anos e nessas viagens, mais dispendiosas, por norma o meu marido paga a maior parte.é

A ter de ser atribué do uma etiqueta de é gastadoré e é poupado a cada u, Cé tia assume que apesar de o ordenado dela voar num instante, por ser pequeno, ela é a mais rigorosa e comedida com os gastos. é Ele gasta mais, porque tem mais, e muitas vezes não olha a pre os.é é assim, mas podia ser ao contrário porque nesta área não hé diferené as entre homens e mulheres fundadas no gé nero.

é As diferené as são sobretudo entre educações de base e perfis de personalidade diferentes. Tanto os homens como as mulheres tendem a reproduzir automaticamente a gestão financeira da sua família de orige, o que por vezes se revela incompaté vel entre parceirosé, diz a psicé loga Filipa Jardim da Silva.

Tentar gerir os conflitos que resultam de questões financeiras não depende do dinheiro. Depende das expetativas com necessidades, prioridades, desejos e emo ões.

No que toca é personalidade, é pessoas mais ré gidas e desconfiadas tendem a ter dificuldade em partilhar uma sé conta bancé ria, as mais inseguras podem sentir mais necessidade de dividir tudo de igual forma, mesmo quando existem desigualdades salariais, as mais ansiosas tendem a dividir-se entre preocupações significativas com o futuro, o que as leva a querer poupar muito ou, por outro lado, a apresentar comportamentos de consumo impulsivos como escape.é

Cé tia tem uma conta poupané a desde pequena, em que era depositado o dinheiro do Natal, aniversério e outros presentes. é O meu marido sé abriu uma conta quando come ou a trabalhar e nunca foi educado para poupar.é Mas, apesar das diferené as, é mais aquilo que os junta do que os separa, e Cé tia garante que o facto de ganhar menos e pagar menos coisas, não faz que se sinta com menos poder de decisão. tudo conversado entre os dois e não é por ganhar menos que deixo de opinar.é

Apesar de ser mais ou menos aceite que as despesas pessoais saem da bolsa de cada um e as despesas comuns saem em igual medida ou em propor o das carteiras, hé variantes condicionadas pelas circunstâncias, até na pré pria defini o do que são despesas comuns. é Para a maioria dos casais a casa é uma despesa comu, mas hé muitas situações em que o casal vive na casa que já era de um e quem é proprieté rio prefere continuar a pagé -la sozinho.é

Uma das regras básicas é tirar uma hora por mês para falar sé sobre dinheiro e sobre as decisões que queremos tomar em relação é finanças, com as contas em cima da mesa.

é o caso de Ana e Carlos. Casados hé oito anos, mas namorados muito antes, a casa onde vivem foi comprada apenas por ela, que assegura todas as despesas: prestação ao banco, seguro e obras de manuten o. é Foi uma decisão minha antes de casaré, diz a engenheira civil. é Queria ter a certeza de que se me quisesse divorciar não ia ter problemas com a casa. Sei que é muito pouco romé ntico, mas para mim foi importante. O meu marido na altura não achou a mais pequena graé a, mas não lhe dei hipé tese nesse aspeto. Somos casados com separação total de bens e gosto assim.é

Durante os primeiros anos de casamento, com exce é o da casa, foi tudo dividido a meias. Iam pagando e no final do mês faziam as contas ao que cada um tinha pago e acertavam. é Tré anos depois do casamento, Carlos ficou desempregado e a fazer apenas trabalhos precé rios de higiene e segurané a no trabalho. Resultado: nunca três o mesmo valor para casa todos os meses. é E na mesma altura em que diminué ram as receitas do casal, também aumentaram as despesas: o primeiro filho nasceu pouco depois. Em conjunto acabaram por decidir uma nova forma de gestão financeira: Ana paga todas as contas e o marido, com o que não gasta, faz a poupané a que ela não consegue fazer.

Quem olhe de fora pode dizer que é uma situação com potencial para criar conflitos. Mas, para Ana, é uma op o que reflete a transparé ncia com que se está na relação e a solidez que ela tem. é Não me preocupa nada que ele poupe enquanto eu gasto. Tenho 41 anos e namoro com o meu marido desde os 16. Não tenho a mais pequena dé vida acerca do seu caré ter.é Apesar disso, as coisas estão salvaguardadas: é Esse mealheiro que ele faz é repartido entre a sua pré pria conta, uma conta da qual eu sou a é nica titular e a conta dos nossos filhos.é

Tentar gerir os conflitos que resultam de questões financeiras não depende do dinheiro. Depende, isso, si, das expectativas com necessidades, prioridades, desejos e emo ões. Cada um de nós tem um conjunto de valores é nico e é com base nele que toma decisões em relação ao dinheiro. O problema come a quando as necessidades e prioridades dos membros do casal são diferentes, explica Susana Albuquerque. é Para a mulher de um casal com crianças é possé vel que o mais importante sejam os filhos e a sua educação. Logo, as necessidades que vai identificar estão relacionadas com eles: colé gio privado, atividades extracurriculares, brinquedos, livros. Mas é possé vel que o marido esteja numa fase em que tem como prioridade a carreira, querendo aplicar o dinheiro em formação, num computador novo, em roupa que acha que é necessé ria para a atividade profissional. é um exemplo estereotipado, mas frequente, que pode dar muitos mal-entendidos e conflitos.é

Quando o marido diz que não concorda que se gaste dinheiro no colé gio privado, o que a mulher é ouve é que ele não está interessado em dar aos filhos as melhores condié ões de educação, e quando ela o critica por gastar dinheiro em roupa nova para o trabalho ou em gadgets, o que o ele pensa é que a sua ambi o profissional não está a ser valorizada.

Como resolvermos isto? Susana Albuquerque defende que uma das regras básicas é tirar uma hora por mês para falar sé sobre dinheiro e sobre as decisões que queremos tomar em relação é finanças, com as contas em cima da mesa. é Isto ajuda a que cada um tome conscié ncia do que precisa, o que valoriza e porqué . O primeiro passo é sempre perceber qual é a necessidade emocional que está na base do gasto ou da poupané a, qual é a motivação mais profunda. Sé depois de cada um identificar essas necessidades que vé o além do dinheiro é que é possé vel comunicar com o outro e ouvi-lo, sem ceder a emo ões de zanga e frustração.é

Uma coisa são as divergé ncias de gestão financeira, outra são os comportamentos patolé gicos que possam envolver mentiras ou perda de controlo.

Claro que é importante distinguir estas questões de outras, mais profundas e desestruturantes. Uma coisa são as divergé ncias de gestão financeira, outra são os comportamentos patolé gicos que possam envolver mentiras ou perda de controlo. é Os comportamentos compulsivos (compras, jogo) que levam ao endividamento constituem um problema real e sério , diz a psicé loga Filipa Jardim da Silva.

é Não se trata de uma questão de feitio que o tempo faz passar. A toleré ncia e o adiamento de confronto são estraté gias que agravam o problema em vez de o solucionar e podem causar danos pré ticos a todo o sistema familiar.é Tal como noutros quadros de doené a psicológica, é importante que ambos os elementos estejam atentos a si mesmos e ao outro, de forma a pedir ajuda externa, quando necessério.

INFIDELIDADE FINANCEIRA

é uma outra forma de trai o e consiste em não ser honesto com o outro acerca de gastos e poupané as. Esconder compras feitas (dizendo que foi oferecido) ou ter uma conta poupané a que o outro desconhece são duas das modalidades mais comuns. Comportamentos que dizem muito sobre a relação com o dinheiro, mas dizem mais ainda sobre a forma como se está na relação. é Coloca um dos elementos do casal com um pé dentro e outro fora da relação , diz a psicé loga Filipa Jardim da Silva. é Quando algué m está numa relação com uma conta poupané a oculta do companheiro, denota não estar inteiro na relação. E quando algué m esconde compras de forma persistente, parece não se sentir suficientemente seguro para se afirmar e defender as suas escolhas.é