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Nos últimos tempos, os gastos excessivos com o cartão de crédito entraram no foco do Banco Central e de entidades de defesa do consumidor. No ano passado, chegou-se a lançar uma campanha pelo “uso consciente” do cartão, e houve mudança nas regras do pagamento do crédito rotativo, uma forma de diminuir os juros pagos pelo consumidor.

Mesmo assim, o pagamento da fatura do cartão ainda consome cerca de um terço do orçamento de quem usa o “dinheiro de plástico”. As novas regras do rotativo, que entraram em vigor em abril de 2017, também não foram suficientes para derrubar as taxas desse meio de pagamento. Assim, a recomendação dos especialistas é para que consumidores, no geral, não usem essa linha de crédito.

Segundo dados da plataforma de finanças pessoais Guia Bolso, em média, 33,22% dos ganhos foram usados para quitar a conta do cartão em janeiro – número até um pouco maior que o observado seis meses antes (32,81%). O número está bem acima do recomendado por especialistas – para Bruno Poljokan, diretor da fintech de crédito Just, o ideal seria algo em torno de 10%. Entre os principais gastos dentro da fatura do cartão estão as compras, que vão desde roupas e utensílios a jogos online, (26,93%), mercado (12,86%) e transporte (12,05%).

Gastos com serviços e mercado – além das famosas “parcelinhas” – são as principais contas da fatura do editor de vídeo João Vitor Albuquerque. O saldo final das contas corrói 60% do orçamento todo mês. O número é alto porque é no cartão que ele concentra todos os gastos – até a recarga do bilhete único. Albuquerque justifica que adota essa estratégia para obter vantagens oferecidas pelas instituições financeiras como a conversão em milhas aéreas.

A peleja de todo mês é organizar as parcelas de modo a não comprometer ainda mais o fluxo de caixa e acabar caindo na ciranda de juros da dívida mais cara do mercado: o rotativo do cartão de crédito. “Quando era mais novo, tinha muita dificuldade de pagar, e acabava empurrando com a barriga. Não sei se o que faço hoje é muito inteligente, mas foi como consegui me organizar”.

Para Nicola Tingas, economista da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), as pessoas abusam do cartão de crédito pela falta de informação e pela necessidade de complementar a renda.

“Muita gente não tem noção de que está com um produto tão caro e, quando vê, já está afundada em dívidas”, observa. Além disso, lembra, em fase de recuperação da economia, as pessoas começam a voltar a cometer pequenas “extravagâncias”.

Há um ano o governo mudou as regras do rotativo. Agora, os bancos são obrigados a transferir, após um mês, a dívida do rotativo do cartão para a modalidade parcelada, a juros mais baixos.

A intenção do governo era permitir que a taxa de juros para o rotativo recue, já que o risco de inadimplência, em tese, cai com a migração para o parcelado. A inadimplência, de fato, caiu ao longo de 2017, de 5,7% em dezembro de 2016 para 4,9% no fechamento do ano passado. Mas o efeito das novas regras sobre os juros desse meio de pagamento está longe do esperado.

Embora em 2017 os juros do cartão tenham caído 163,1 pontos percentuais em relação ao fim de 2016, de 497,9% para 334,6% ao ano, as taxas do dispositivo continuam altas. O juro médio total cobrado no rotativo, entretanto, subiu 5,9 pontos porcentuais de janeiro para fevereiro, segundo o Banco Central. Com isso, a taxa passou de 328% em janeiro para 333,9% ao ano em fevereiro.

Compras parceladas são vilãs do mau uso do cartão

Para Poljokan, da Just, o grande vilão do cartão são as compras parceladas. “Quando parcela o valor da compra, a pessoa perde a noção de fluxo de caixa e vai comprometendo a conta até chegar ao limite e não conseguir pagar, acabando no rotativo”, explica.

Uma regra geral de finanças que ele recomenda é a 50-15-35, em que 50% do orçamento é destinado a gastos essenciais, como aluguel e contas da casa; 15% para juros de financiamentos, como carros, apartamento ou empréstimo pessoal; e 35% para gastos com estilo de vida. O primeiro passo para se organizar, segundo Poljokan, é evitar parcelar compras atreladas ao estilo de vida – como salão de beleza e viagens –, deixando essa facilidade para gastos maiores.

Além da comodidade de contratação e da popularização do cartão de crédito, Marianne Hanson, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), explica que o cartão toma tanto espaço no orçamento porque vem substituindo outras modalidades de dívida mais utilizadas pelo brasileiro no passado, como o cheque pré-datado e o carnê de loja.

No início de 2010, quando teve início a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), medida pela CNC, o cheque pré-datado era apontado como a principal dívida por 4% dos entrevistados. Já em março deste ano, essa modalidade foi apontada como a maior por apenas 1,2%. No caso do carnê de loja, era o principal responsável pelas dívidas para 30% dos entrevistados em 2010, tendo caído quase à metade no mês passado (16%). Já a dívida do cartão de crédito hoje é apontada como a principal por 76,4% das famílias endividadas, de acordo com a CNC.

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Fonte: Gazeta do Povo


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