Finanças rimam com crian as e não e por acaso

 «É fundamental promover a compreensão das crianças de que dinheiro e trabalho são dois conceitos que estão ligados». Bem que o ditado diz que é de pequenino que se torce o pepino. É precisamente a pensar nisso que é lançado esta quarta-feira o manual «Educação Financeira das Crianças e Adolescentes», que surge na sequência do «Manual das Finanças Pessoais» e do «Manual da Poupança».

 
Desta vez, o livro continua a ser dirigido a adultos, mas a pensar nas crianças e nos jovens e na forma como eles lidam com o dinheiro, com a poupança, com o consumo, com o trabalho. Para os mais pequenos, há um suplemento extra com atividades e jogos. 
 
«As crianças vão ser os consumidores de amanhã, são elas que vão introduzir mudanças na família». O economista Ricardo Ferreira, autor do livro, entende que a gestão das finanças pessoais vai ganhar terreno tal como a importância de reciclar se tornou num comportamento diário.
 
«Regra geral, os adultos não estão preparados para educar financeiramente as crianças. Não só por falta de formação académica», mas porque lidam mal com o tema. É encarado como «pesado».
 
Para além dos pais, e embora a escola não tenha, «de forma imperativa, essa missão, o universo escolar tem hoje um papel muito mais amplo do que no passado. Tem uma missão social também. É preciso repensar o espaço escolar, preparando os professores, à semelhança do que fizemos nas escolas da Moita», com uma semana de atividades alusivas à poupança.
 
A ideia é «falar de dinheiro sem tabus». O facto de já existirem crianças a ligar para linhas de apoio por terem os pais desempregados e não saberem o que fazer é elucidativo do trabalho de casa que ainda não foi feito. «Há um certo pudor em partilhar os problemas com as crianças. Mudámos em dois ou três anos o nosso estilo de vida, de forma imperativa. Criar uma pressão muito forte sobre elas é prejudicial (podem temer ficar sem nada, sabendo que não está nas mãos delas resolver), mas esconder que a situação se alterou também não é positivo». 
 
A palavra certa é «envolver». Ricardo Ferreira dá o exemplo de quando vem a fatura da água ou da luz para pagar é preciso envolver os filhos na análise de quanto se gastou e porquê. Sem tabus, mas com tato. Devem «transmitir a realidade, explicando porque é que as férias de antigamente já não são possíveis. Porque é que comer fora traduz-se hoje na necessidade da marmita. E os seus próprios comportamentos também têm de ser coerentes». Não fossem eles educadores. Não vale dizer faz o que eu digo, não faças o que eu faço. 
 
O livro traça o diagnóstico por faixas etárias em relação aos conceitos que as crianças/jovens devem aprender, delineia estratégias, dá dicas. Se pensava, por exemplo, que não vale a pena falar de endividamento a crianças, está enganado. Para além da semanada ou mesada simbólica que a devem ter para aprender a gerir e a ter noção do valor do dinheiro, convém saberem que «se não houver fundo de emergência», nem que seja para pôr mais um prato na mesa para um convidado esquecido, «recorrer ao crédito só por si não é positivo». 
 
Abordam-se ainda os conceitos de trabalho, de voluntariado, de estágios e de empreendedorismo. «Com o voluntariado, os mais novos adquirirem conhecimento e experiência de formas desinteressadas que mais tarde podem vir a ser importantes. Os estágios são uma antecâmara do mercado de trabalho, que aumentam em muito a probabilidade de aumentar as suas receitas (leia-se ordenado) no futuro. E o empreendedorismo é a quarta peça que faltava, não por estar na moda, mas para o desenvolver ao máximo, desde tenra idade». Por isso, mais do que questões de educação financeira, o livro «tende para a cidadania como um todo».