Juro Zero – Desconfie!

Desconfie das ofertas de financiamento com taxa de juro zero

É público e notório que o consumidor brasileiro paga taxas de juros extremamente elevadas nas operações de crédito, muito superiores às praticadas em outros países.
De repente, nos deparamos com uma oferta "imperdível" para comprar uma TV em dez vezes sem juros! Ou então, mais surpreendente ainda, comprar um carro e pagar em 24 meses com juro zero!!
Aqui entre nós, fica difícil acreditar que o mesmo mercado que castiga o consumidor com a cobrança de juros tão elevados possa oferecer uma condição tão generosa, não é mesmo?
Qual é o mistério que se esconde atrás dessa oferta? Como conferir se a oferta é verdadeira ou esconde condições que alteram o resultado final da transação?

PREÇO À VISTA X A PRAZO
Para comprovar se uma transação é feita, de fato, com juro zero, verifique se o valor da mercadoria comprada à vista é o mesmo valor da mercadoria comprada com o financiamento "generoso". Mas não basta perguntar para o lojista. Pesquise muito antes de comprar.
José foi até uma concessionária, demonstrou interesse em adquirir um carro novo, perguntou as condições comerciais e quais as formas de pagamento disponíveis.
O vendedor fez a oferta generosa que José estava esperando. Entrada de 50% e 12 parcelas iguais, sem juros, de R$ 2.000. Fazendo as contas, o preço do carro financiado será de R$ 48 mil. As 12 prestações totalizam R$ 24 mil e a entrada, de igual valor, será de R$ 24 mil.
José pergunta ao vendedor qual seria o preço do carro se ele puder pagar tudo à vista. A princípio, o vendedor fez uma tentativa de desencorajar a compra à vista porque deixaria de ganhar a comissão que a financeira paga sempre que consegue uma operação de crédito.
Quando percebeu que era a opção preferida por José e que havia um concorrente na jogada, conversou com o gerente da loja e apresentou a condição de R$ 46 mil para pagamento à vista.
Aí está a revelação dos "juros" escondidos na transação: o desconto de R$ 2.000, equivalente a 4,15% do valor a prazo, neste exemplo, deixa claro que existe um preço diferente para pagamento à vista e outro para pagamento a prazo.
Se for verdadeira a oferta de financiamento com juro zero, José deveria comprar o carro com entrada de R$ 23 mil e 12 parcelas de R$ 1.916,66 cada uma. Oferta feita e recusada pela concessionária.

OUTROS CUSTOS
Fernanda quer comprar o mesmo carro de José, mas não tem recursos para pagamento à vista. Dará 50% de entrada (R$ 24 mil) e pagará 12 parcelas de R$ 2.000 cada uma. Abre mão, portanto, do desconto de R$ 2.000.
A concessionária não apresentou, com clareza e transparência, como outros custos alteram o custo final dessa transação. Mais tarde, ao ler as letrinhas pequenas no rodapé do contrato, Fernanda percebeu que o custo do financiamento não seria zero como imaginava.
Taxa de Abertura de Crédito (TAC): essa é a primeira taxa que Fernanda pagou para que o agente financiador avalie sua capacidade financeira de assumir essa dívida. Desembolsou R$ 800.
Imposto sobre Operações Financeiras (IOF): imposto de 3%, aplicável sobre algumas modalidades de financiamento, onera o valor da prestação. No caso de Fernanda, o IOF foi de R$ 720.
Custo Efetivo Total (CET): corresponde a todos os encargos e despesas incidentes nas operações de crédito e de arrendamento mercantil.
Se excluirmos a TAC e o IOF, veremos que Fernanda financiou o valor líquido de R$ 22.480 (24.000 – 800 – 720). Dessa forma, o CET da operação de Fernanda foi de 1,02% ao mês, ou 12,97% ao ano.

DEZ VEZES SEM JUROS
É cada vez mais frequente a abordagem do comércio varejista que anuncia, com grande estardalhaço, pagamento "em dez vezes sem juros no cartão".
Quando questionado sobre a condição para pagamento à vista, o vendedor responde que o preço é igual e que nenhum desconto pode ser concedido.
É evidente que, também nesse caso, existe uma diferença relevante entre receber o dinheiro todo de uma vez ou em dez meses.
Alguém está financiando o lojista, cuja vocação é vender mercadorias e não financiar o consumidor, tarefa que ele deixa para bancos e financeiras, por exemplo.
Nesse caso, quem financia a compra parcelada do comprador final é a administradora do cartão de crédito, que aplica um desconto sobre o valor da venda e entrega para o lojista, à vista, o dinheiro que ele precisa para capital de giro.
Muitas vezes, conseguimos um bom desconto para pagamento à vista, desde que a forma de pagamento seja cheque ou dinheiro.
O comerciante deixa de pagar 10%, por exemplo, para a administradora do cartão e concorda em conceder desconto de 5% a 10% para o cliente.
Principalmente quando se trata de cliente conhecido da loja, afastando a possibilidade de o cheque dado em pagamento da transação ser roubado, devolvido por falta de fundos ou qualquer outro motivo que impeça o recebimento.
Moral da história: nada é de graça -não existe financiamento sem juros.
Planeje muito bem antes de comprar. Se você tem 50% ou mais para dar de entrada, poupe um pouco mais e compre à vista.