Longevidade: Mais tempo para realizar sonho

Há 20 anos, as pessoas com mais de 65 anos eram 4,8% dos brasileiros. Hoje, já representam 7,4% e vivem três anos a mais do que há dez anos. Com hábitos de vida mais saudáveis e avanços da medicina, a expectativa de vida aumentou de 70,5 anos (2000) para 73,5 (2010). Os idosos estão vivendo mais e com mais disposição e, no topo da lista dos planos, estão as viagens, apontadas como prioridade por 58% dos idosos, segundo levantamento da consultoria QuorumBrasil.

"As prestações dos pacotes de turismo já são uma parcela fixa no orçamento deles, que acabam de pagar uma viagem e começam outra", afirma o consultor Khacyos Rezende, diretor da Recíproca Comunicação. O gosto por viajar não movimenta apenas a cadeia do turismo. Como conhecer outros países está mais fácil, as escolas de idiomas estão recebendo cada vez mais alunos da melhor idade. "Nós temos turmas específicas para a terceira idade, mas eles preferem assistir as aulas junto com os mais jovens. A procura de alunos acima de 60 anos aumentou 20% nos últimos dois anos. Eles querem ficar mais independentes nas suas viagens", afirma a gerente de pesquisa e desenvolvimento pedagógico da rede Number One, Ana Regina Fonseca.

O advogado aposentado Wiley de Faria, 72, voltou para as aulas de inglês logo depois que se aposentou. "Eu quero viajar e falar sem preocupação. Eu e minha mulher fizemos uma reserva ao longo da vida só pensando nas viagens", conta.

A gerente da World Study, Luciana Soares, afirma que a procura por intercâmbios também tem crescido muito entre os mais velhos. A rede tem parceria com escolas de idiomas em mais de 60 países e os alunos vão fazer cursos de línguas no exterior e ficam em casas de família. "Os idosos têm ido mais para o intercâmbio. Eles ficam em média duas semanas e o custo é a partir de R$ 4.000. É mais em conta do que os pacotes e ainda tem o curso de idioma. Depois das aulas, podem passear", destaca Luciana.

Quem souber cativar, terá um público fiel

O consultor Khacyos Rezende, diretor da Recíproca Comunicação, alerta as empresas para ficarem mais atentas aos consumidores da melhor idade. "Este é um público muito fiel, quem souber cativar, vai ter um consumidor vitalício".

O Tauá Grande Hotel e Termas de Araxá criou um pacote exclusivo para esse público. "Cerca de 20% dos nossos hóspedes têm mais de 60 anos, eles nos procuram pelas propriedades medicinais e terapêuticas das termas e nós temos monitores treinados para acompanhá-los, com atividades voltadas para o perfil deles", afirma a gerente de compras com foco em melhor idade do hotel, Vanessa Oliveira. "A cidade sai ganhando, pois é um público que gasta mais, compra presentes e leva doces e queijo para a família inteira", diz.

A corretora de seguros do banco Mercantil do Brasil também criou um produto específico para os idosos. Segundo a gerente de seguros e previdência privada, Maria Cristina Ferreira, o Proteção Melhor Idade oferece cobertura para queimaduras, fraturas e acidentes domésticos, a partir de R$ 2,95 por mês. O Residência Melhor Idade é um seguro contra incêndio, queda de raio, danos elétricos e roubo de bens. O preço é a partir de R$ 3,95. "Esses dois produtos já são 40% das apólices de seguro vendidas", afirma Maria Cristina.

Melhor idade tem R$ 402 bi para gastar e quer aventuras

Eles querem casa na praia, viajar, voar em balão e pular de paraquedas

Eles têm tempo e dinheiro para gastar. E, com o passar dos anos e o avanço da medicina, têm ficado cada vez mais bem dispostos. Só neste ano, os idosos devem movimentar R$ 402 bilhões, segundo pesquisa do Instituto Data Popular. O montante é praticamente 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, que está na casa de R$ 4,1 trilhões. É também quase metade dos gastos de toda a classe C do país, que tem potencial de gastar R$ 1 trilhão. As viagens ainda estão no topo da preferência desse público consumidor, mas eles também querem trocar de carro, comprar casa na praia e até pular de paraquedas.

Um levantamento do instituto QuorumBrasil mostra que 33% dos idosos sonham com alguma aventura. A aposentada Noeme Queiroz de Assis, 62, realizou o sonho de voar de balão. "Eu voei em março deste ano, foi maravilhoso. Eu adoro esportes radicais e ia fazer tirolesa, mas como já quebrei o braço, fiquei com receio. Mas ainda vou voar de asa delta, mesmo porque vai uma pessoa com a gente", afirma Noeme.

O proprietário da By Brazil Balonismo, Enrico Dias, conta que 20% dos voos já são feitos por pessoas com mais de 60 anos. "A maioria são aposentados, que convidam filhos e netos. É um público rentável, geralmente não gosta de parcelar e leva outras pessoas", destaca o empresário.

A pesquisa também mostra que 9% dos idosos ainda querem adquirir algum bem. O mercado automotivo é um dos segmentos que lucra com esses desejos. O diretor da concessionária Kia Brisa, Ruy Carlos Barbosa, afirma que esse nicho está amadurecendo de uns tempos para cá. "Eles estão mais independentes, têm mais vitalidade e um bom poder aquisitivo. Já são entre 15% e 20% das nossas vendas e, como têm renda estável, é mais fácil aprovar a linha de financiamento para eles", conta Barbosa, lembrando que são mais preocupados com inovações tecnológicas e itens de segurança, porque transportam muito os netos.

Aos 72 anos, o procurador de Justiça aposentado, Luiz Vicente Calicchio, adora dirigir e troca de carro de dois em dois anos. "Gosto muito de viajar, tenho casa de campo no interior e também visito minha família em Guaxupé, no Sul de Minas", conta.

O sócio-diretor do Data Popular, Wagner Sarnelli, afirma que, atualmente, as pessoas com mais de 60 anos fazem atividades que antes não faziam e movimentam as mais diversas áreas. "É um potencial enorme para gastar em serviços, entretenimento, viagens. Cabe aos setores ficarem atentos, investirem em produtos específicos, porque, uma vez cativados, eles são muito fiéis", diz Sarnelli.

Aplicação: Poupança lidera preferência dos investimentos

A poupança ainda é o investimento preferido dos idosos. Levantamento da consultoria QuorumBrasil revela que 47% aplicam o dinheiro que sobra. Desse total, 34% optam pela velha e segura caderneta; 6% preferem fundos, 6% compram imóveis e 1% ações. A coordenadora do curso de administração da Estácio de Sá, Ângela Lage, afirma que os brasileiros estão envelhecendo com mais consciência financeira. "O perfil mudou e eles já não têm tanto interesse em guardar dinheiro para os filhos como antigamente. Eles querem investir neles", destaca Ângela.

Na opinião da economista, o mais indicado é escolher uma opção que garanta liquidez. "Um bom fundo e a poupança são mais compatíveis com a idade, pois o idoso vai poder sacar quando quiser e terá boas taxas do mercado. Já a Bolsa de Valores não é tão aconselhável, a não ser que a pessoa seja um bom operador", avalia Ângela.

Os imóveis também são considerados, mas não são a melhor opção. Segundo a economista, se o idoso precisar do dinheiro, a venda não é tão imediata, o que dificulta a liquidez. Mas, se for para aluguel, o investimento imobiliário é uma alternativa interessante para esse público.

De acordo com dados do instituto de pesquisas Data Popular, já são 22,3 milhões de pessoas com mais de 60 anos no Brasil. Desse total, 3,3 milhões continuam trabalhando, mesmo depois da aposentadoria.