Nossa relação com o dinheiro, os pequenos hábitos e o ano novo

 Quem busca uma relação melhor com o dinheiro muitas vezes dá de cara com ilusões e dificuldades comuns a diversas áreas e processos. A maioria delas surge logo nas primeiras movimentações: os primeiros resultados são rápidos e trazem um conforto perigoso.

É bem parecido com aquele amigo que, na primeira semana depois do feriado repleto de celebrações gastronômicas, conta sobre a primeira semana de academia, dizendo que não consegue entender porque não havia começado antes, que já sente algumas diferenças no corpo e que pretende continuar frequentando diariamente. Duas ou três semanas depois, misteriosamente, ele para. Mas não estava fazendo um bem enorme?

Atos impulsivos, imaturos e ocasionais dificilmente se sustentam. É como se estivéssemos embaixo d’água, sem conseguir respirar. Sabemos que, para que possamos sobreviver e agir com mais destreza, precisamos tirar nosso corpo todo dali.

Você já tentou correr dentro da piscina? Logo nos primeiros esforços, colocamos a cabeça para fora e nos sentimos felizes e tranquilos: agora conseguimos respirar. Não nos preocupamos em tirar o resto, em dar alicerce sólido para a mudança. Pouco a pouco vamos relaxando, tiramos o foco e, em instantes, estamos imersos novamente na piscina e na zona de conforto.

Trazendo para o mundo dos cifrões, essa nossa dificuldade fica ainda mais evidente. Está tudo muito acessível, mas, muitas vezes, não temos discernimento para interpretar o caminhão de informações que recebemos e nos contentamos com os primeiros avanços.

Por exemplo, é muito comum escutar da boca de quem está a algumas semanas ou meses lendo sobre finanças: “a poupança tem rentabilidade negativa”. Realmente, após as mudanças das regras, a poupança tem rendido menos do que a inflação, mas de maneira nenhuma isso justifica não poupar.

Mesmo que perca para a inflação, ainda existem vantagens muito significativas. A primeira delas é matemática: manter o dinheiro rendendo pouco (poupança) é infinitamente melhor do que manter o dinheiro parado (conta corrente). Se a inflação ganha da poupança, ela dá uma goleada na conta corrente.

Além disso, somos seres movidos por rituais. O ato de tirar o dinheiro da conta corrente e colocar em algum outro lugar é muito simbólico. É como se disséssemos para nosso cérebro, acostumado a procrastinar: “Eu sei que eu poderia dizer que vou deixar para separar esse dinheiro quando tivesse uma conta em uma grande corretora ou quando fosse um profundo conhecedor do mercado, mas resolvi começar agora”.

Traçando um paralelo com o exemplo que abordamos no início, ficaria assim: “Eu sei que eu poderia dizer que vou deixar para começar a correr no parque quando comprasse um tênis novo, mas resolvi começar agora”.

Optar por poupar é tão ou mais importante do que conhecer todas as modalidades de investimento oferecidas pelo mercado. Acompanho diversas pessoas que, aos poucos, estão mudando seus hábitos e tentando apontar seus esforços em direção a uma vida financeira mais saudável. Em todos os casos, a vantagem de começar de maneira simples e sustentável é muito notória.

Enquanto os investimentos não estão estruturados, sugiro que você aproveite o ímpeto de mudança que surge quando você está analisando seu extrato bancário e faça a transferência na hora. Flagre-se sugerindo dietas financeiras que começam no “mês que vem”.

Aos poucos, conforme conhecemos melhor o mercado, novas modalidades de investimento passam a fazer sentido. É muito mais fácil se dedicar à parte técnica das finanças depois que o hábito de poupar e respeitar o dinheiro pode ser considerado enraizado.

Vale a pena deixar que essas ações efetivas tomem um pouco do espaço que dedicamos às metas de ano novo. Comece pequeno, mas comece.