Por que pagar com dinheiro “dé i mais” do que passar o cartão

Por que pagar com dinheiro “dé i mais” do que passar o cartão

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Muitos conselhos de economistas podem até variar, mas especialistas em finanças pessoais será o sempre uné nimes em dizer: se você quer economizar, comece a pagar suas compras com dinheiro de papel. Isso porque ver aquele volume de notas saindo da sua carteira vai “doer mais” do que simplesmente passar o cartão de dé bito. Dessa forma, a tendé ncia é que as pessoas se controlem mais se usarem o papel.

Não deveria fazer diferené a, mas faz. E esse fené meno não é isolado. Acontece porque a tomada de decisão humana é irracional — por mais que nós gostemos de acreditar o contrário. Hé anos a academia tem se dedicado a estudar situações assim. Nesta quarta-feira (24/08), um dos maiores especialistas no tema, Dan Ariely, discutiu o assunto no evento “Cié ncia Comportamental: Como acelerar as mudanças que o Brasil precisa a partir de uma nova visão do comportamento humano”, em Sé o Paulo.

Segundo ele, é possé vel traé ar um paralelo entre ilusões visuais e a tomada de decisão. “Mesmo sabendo que é um truque, se você já pensa daquela forma, vai ser difácil mudar”, explica ele. As decisões estão muito ligadas é nossas emo ões e pressões externas.

Grandes mudanças no padrão de tomada de decisão sé aconteceram com viradas também emocionais. Ariely deu como exemplo a reciclagem. “Hoje, as pessoas reciclam porque existe uma pressão social. Economizar energia elé trica também é bom para o meio ambiente, mas é algo muito mais privado, ningué m está vendo [então as pessoas não economizam].”

Ariely também destaca como o número de fumantes caiu nos Estados Unidos. Não foi por causa dos avisos explicando como o cigarro fazia mal para a saúde. “Informação por si tem um papel muito pequeno na hora de mudar um comportamento”, afirma o especialista. Conhecimento não é a solu o aqui. O ponto de virada foi a ideia de que existem também fumantes passivos. “Você vilanizou o fumante. Agora eles não estão sé se matando, mas matando o próximo. é tremenda pressão social.”

Além desse tipo de fator externo, pequenos detalhes podem influenciar a tomada de decisão, tamanha nossa irracionalidade. Ele citou como exemplo a taxa de doação de é rgé os na Europa – especialistas se questionavam por que isso variava tanto de país para país. Para complicar a ané lise, culturas similares tinham taxas de doação completamente diferentes. Ali, a resposta estava no status quo. Nos países em que o cidadão tinha de escolher Né O ser um doador, a taxa de doação era alta. Nos países em que tinha se de voluntariar a SER doador, a taxa de doação era baixa. As pessoas não querem tomar decisões importantes, “querem deixar o formulé rio escolher”, diz Ariely.

Para mudar comportamentos, na maioria dos casos, de acordo com ele, é sé uma questão de tornar aquela determinada ação mais fácil ou difácil. O suicé dio diminuiu no Reino Unido simplesmente porque o gé de cozinha ficou menos táxico. “Até uma decisão como o suicé dio as pessoas tomam com base no qué o é fácil ou difácil.”

Ou seja, se sua empresa ou governo quer estimular as pessoas a fazer algo, fazer pequenas mudanças pode ser a chave. Primeiro, é preciso identificar o obsté culo para aquela tomada de decisão e, depois, descobrir como resolver isso. Tem lógica. No caso das finanças pessoais, a dica é justamente tornar visé vel o que era invisé vel. Pagar com dinheiro em vez de cartão. Para Ariely, serviços como Apple Pay, que deixam o dinheiro ainda mais invisé vel, tornam ainda menos doloroso gastar.

“Nos últimos anos, poupar ficou menos visé vel e o gastar é mais invisé vel”, diz Ariely. Um estudo mostrou que vizinhos de ganhadores da loteria gastavam mais, influenciadas pelo vizinho que estavam gastando. As pessoas querem competir. “Né consumimos mais e poupamos menos. (…) Poupar para a aposentadoria, por exemplo, é um das coisas mais difáceis de fazer. Porque é algo abstrato, está no futuro.”