Quanto poupar, afinal?

Consultores e educadores financeiros sugerem que a poupança ideal deve ficar entre 8% e 15% dos ganhos

Economizar 10% da renda para as necessidades futuras é um tradicional clichê em educação financeira pessoal. Nem sempre funciona, pois trata-se de uma média. É provável que um jovem de 20 anos que seguir essa regra por quatro décadas terá uma fortuna bem maior do que um sênior de 50 anos que fizer o mesmo por 20 anos.
Por esse motivo, consultores e educadores financeiros sugerem que o percentual da renda a poupar esteja entre 8% e 15% dos ganhos. A margem estatística é para compensar as diferentes necessidades e limitações de prazo. Poré, toda média pressupõe uma simplificação extrema das variáveis envolvidas. A orientação padrão supõe que todos os trabalhadores que buscam sua independência financeira no futuro desejam trabalhar por cerca de 35 anos e investirão em produtos financeiros convencionais.
Há um ajuste menos matemático e mais estratégico a fazer nesse padrão de recomendação. Que, por exemplo, gosta muito do que faz e não considera a hipótese de parar de trabalhar, pode poupar menos do que o padrão recomendado.
É o caso de autônomos e profissionais liberais que adquirem maior valorização de seu trabalho com o passar do tempo e aumento da experiência, e que não sentem o trabalho como um fardo. Nesses casos, não há desequilíbrio em poupar menos e se aposentar mais tarde.
Por outro lado, diversos profissionais não sentem o menor apego pela profissão, ressentem-se do estresse e do comprometimento da saúde, e mesmo nos primeiros anos de carreira já esperam ansiosamente pela aposentadoria. Há remédio contra a insatisfação com o trabalho: simplificar o estilo de vida, poupar intensamente e, com um pé-de-meia acumulado, mudar o rumo profissional ao investir em um curso profissionalizante ou em um negócio próprio. Em outras palavras, quem ama o que faz deve tirar o pé do acelerador e poupar menos, enquanto quem está insatisfeito com a carreira deve ralar mais para mudar sua realidade e formar reservas para suportar com tranquilidade as turbulências decorrentes das mudanças. Quem busca uma nova vida não está errado em sacrificar seu consumo e poupar 50% da renda ou mais, desde que seus planos não sejam demasiadamente longos. Planos longos demais e sacrificantes tendem a ser abandonados mais facilmente.
Além da análise da satisfação com a atividade profissional ou estratégia de carreira, há uma reflexão a fazer sobre o desempenho dos investimentos do poupador. Quanto mais rentável for a carteira de investimentos, menos dinheiro precisa ser poupado -o pouco que é reservado será multiplicado mais vezes. Não é difícil perceber. Aplicados por 30 anos com rendimento de 0,9% ao mês, R$ 10 mil se transformarão em cerca de R$ 252 mil. Se o rendimento fosse de 0,7% ao mês, seria preciso investir cerca de R$ 20,4 mil para chegar ao mesmo saldo, no mesmo prazo.
Por isso, tão importante quanto disciplinar as contas e viabilizar a poupança é dar atenção aos investimentos e estudar as recomendações de especialistas, para que o esforço de poupança seja recompensado com um futuro mais generoso. Obviamente, há um desafio psicológico a contornar: quanto melhor o desempenho dos investimentos, mais nos motivamos a investir mais. O sucesso nos investimentos é como um vício, e tende a fomentar uma gananciosa ambição que nos motiva a poupar mais do que precisaríamos. Como consequência, poupa mais quem menos precisa poupar. É por esse motivo que é verdadeira a máxima que diz que ricos tendem a ficar mais ricos, e pobres tendem a empobrecer.
Cabe a quem quer mudar de vida exercitar sua disciplina para criar patrimônio e ampliar seu leque de escolhas na vida. E cabe também a quem já possui bom nível de conforto buscar o autoconhecimento e disciplinar suas ambições, para poder desfrutar de sua vida com mais equilíbrio. Certo mesmo é que é insensata qualquer recomendação que supõe que essas pessoas diferentes devem seguir as mesmas regras.