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Uma visão bastante comum, entre os que militam na área de finanças pessoais, é a de que educação financeira seria a solução para todos aqueles indivíduos que encontram dificuldades em relação à administração do próprio dinheiro. A lógica é: educação financeira causaria uma mudança no comportamento das pessoas e, assim, elas poderiam tomar boas decisões e melhorar seu bem estar.

Todavia, a questão não é tão simples quanto parece. Existem autores que não acreditam na viabilidade de tal lógica, argumentando que se joga toda responsabilidade no colo da sociedade, enquanto outras medidas poderiam ser tomadas para proteger aqueles que não possuem conhecimento financeiro. Também há argumentações no sentido de que não existem evidências claras de que ao receber educação financeira, pessoas necessariamente melhorariam suas tomadas de decisão no longo prazo. Talvez haja correlação entre educação financeira e bem estar financeiro, mas não relação de causalidade (mais informações, ver notas [1] e [2]).

Dentro desse contexto, gostaria de apresentar minha visão pessoal, baseada na experiência prática e em diversos estudos com os quais ando tendo contato. Acredito que educação financeira pode auxiliar, e muito, no sucesso financeiro de um indivíduo, porém, não é condição suficiente. Percebo que algumas pessoas, mesmo depois de semanas estudando conceitos chaves para a boa administração do dinheiro, acabam falhando ao tentar colocar em prática os ensinamentos adquiridos. Não conseguem mudar seus hábitos. Nesses casos o desapontamento é ainda maior, pois têm a consciência do que devem fazer, mas não fazem.

Compreender tal questão comportamental, em que os indivíduos possuem grandes dificuldades em mudar seus hábitos cotidianos, tem tomado boa parte de meu tempo enquanto pesquisador. Em uma de minhas leituras recentes, deparei-me com um modelo (Transtheoretical Model of Change – ver mais informações na nota [3]) que auxilia no entendimento do porquê algumas pessoas relutam em mudar seus comportamentos e outras aceitam mais facilmente. Segundo essa teoria, aquelas que entram em contato com educação financeira (seja por qualquer meio disponível), podem encontrar-se em um dos 5 estágios descritos abaixo, em relação à possibilidade de mudança de comportamento em busca de melhorar seu bem estar financeiro:

1) pré-contemplação: o indivíduo não está apto a mudar de comportamento nos próximos seis meses, além de não julgar necessário qualquer ajuda ou informação;

2) contemplação: o indivíduo está querendo mudar nos próximos seis meses, tornando-se aberto a educar-se, mas ainda não iniciou qualquer mudança de hábito;

3) preparação: a pessoa está pronta e apta a mudar algum comportamento em 30 dias, iniciando seus primeiros passos rumo à mudança. Procura informação e auxílio, mas geralmente tem ansiedade e acha que não vai conseguir;

4) ação: a pessoa já mudou de comportamento nos últimos seis meses, sendo agora necessário acreditar na mudança, controlar estímulos que a façam desistir, além de criar um sistema de suporte para superar os desafios;

5) manutenção: o indivíduo já mudou seu comportamento manifestadamente por mais de seis meses, conseguindo, em geral, não voltar aos hábitos antigos. Nesse estágio, tem-se o compromisso de resistir a tentações, está apto a avaliar as condições em que as recaídas ocorrem e, muitas vezes, recorre a auxílio externo para manter sua estratégia de enfrentamento.

Apresentado esse modelo, o que estou buscando argumentar é que entre os leitores do meu blog, ou de alunos de meus cursos de finanças pessoais, haverá sempre uma heterogeneidade acentuada de personalidades. Cada pessoa, em relação às mudanças necessárias para organizar suas finanças pessoais, se encontrará em um dos 5 estágios apresentados acima. Ou seja, as informações que passo (em aula ou artigo) acabam por gerar efeitos distintos, conforme o nível de aptidão pessoal para se colocar os ensinamentos em prática.

Em um mundo ideal (difícil de atingir), a mesma autora citada na nota [3], sugere que seria necessário realizar uma sequência de passos, descritos a seguir, para que se aumentasse a chance de que a educação financeira surtisse efeitos práticos na vida dos receptores das informações:

1) identificar os problemas financeiros específicos de cada indivíduo;

2) verificar quais comportamentos devem ser alterados/modificados;

3) definir os comportamentos desejáveis a serem incorporados;

4) identificar em qual dos 5 estágios, do modelo apresentado, a pessoa se encontra em relação àquele comportamento a ser incorporado;

5) aplicar uma intervenção elaborada especificamente para a pessoa, levando-se em consideração o tipo de comportamento desejado e o estágio na qual se encontra;

6) monitorar e dar suporte ao indivíduo ao longo do tempo, até que se chegue ao estágio 5, de manutenção do comportamento desejado

O que presumo que aconteça, quando um leitor ou aluno falha na adoção de hábitos financeiramente saudáveis, é que ele esteja no estágio 1, 2 ou 3, dificultando que o conhecimento adquirido se expresse na prática. Há também certos casos em que a pessoa procura informações erradas, como por exemplo, estudar sobre investimentos, quando na verdade, ela nem sequer consegue gastar menos do que ganha. Outro problema comum acontece com pessoas que ao estudarem, por exemplo, sobre mercado de ações, adquirem uma confiança exacerbada e acabam por assumir riscos maiores do que o adequado. Nesse caso, a suposta educação financeira adquirida acaba por culminar em decisões ruins (ou seja, cria um hábito nocivo, mesmo depois de certo domínio sobre o assunto).

É possível notar, portanto, que adquirir conhecimento, por si só, pode não ser garantia de melhoria do bem estar financeiro. O custo (tempo, dinheiro) a ser alocado para educação financeira poderá ser alto e não necessariamente os efeitos serão sentidos na prática. O problema é bastante complicado e ainda não há uma solução simples disponível. Enquanto isso, a informação está para todos, mas só alguns conseguirão colocar tais ensinamentos em prática, de forma a melhorem suas decisões. Talvez, um primeiro passo, seja reconhecer o fato, para buscar, enfim, formas de solucionar tal problema.

É isso aí. Boa sorte em suas finanças e vida pessoal.

[ 1 ] WILLIS, L. E.  Against Financial Literacy Education. Selected Works (University of Pennsylvania), 2008. Disponível em: http://works.bepress.com/lauren_willis/1/

[ 2 ] GROSS, K. Financial literacy education: panacea, palliative, or something worse? Saint Louis University Public Law Review, v.24, p. 307-312, 2005.

[ 3 ] LYONS, A. C.  Financial education and program evaluation: challenges and potentials for financial professionals.  Journal of Personal Finance, v.4, n.4, p. 56-68, 2005.

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Fonte: Elisson de Adrade


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